Lições de Blues

Country Blues Fingerstyle Guitar

por Paulo Tonella

Esse é um estilo "antigo" de tocar o Blues, na verdade, podemos até dizer que é a maneira original de tocar o Blues. No meu entendimento, é o Blues mais puro que existe, acho que todas as variações que vieram depois são...variações...

Se você toca o Blues elétrico, obviamente se pegar um violão vai tocar também, afinal o básico está lá, um braço, 6 cordas...mas o Country Blues, como qualquer estilo essencialmente acústico, tem sua própria linguagem. Sempre haverá maneiras diferentes de tocar o Blues, cada um tem o seu jeito de fazer música, e no fim tudo acaba em música, ou pizza...vamos ao que interessa.

Afinações

Bom, existem inúmeras afinações, vou dar um toque aqui das mais comuns no Blues, e que costumo usar.

Open D - D A D F# A D 
Te dá um acorde de D maior, no desenho do conhecido E. É a mesma coisa de Open E (E G E G# B E), só que 1 tom abaixo. No caso de acústico é legal, porque ao invés de puxar a corda e aumentar a tensão, solta-se a corda diminuindo a tensão. Se precisar de E aberto, coloque um capo na segunda casa. Tudo isso também interfere no timbre. Se preferir Open E no violão, eu e 98% das pessoas que tocam slide no mundo aconselhamos a usar cordas mais leves. Pense em intervalos, neste caso I V I III V I.. um lance legal dela é ter 3 tônicas, uma delas a primeira corda que possibilita fazer umas coisas bem legais sem muito movimento de mão (opa...).

Open G - D G D G B D 
Os mesmos intervalos (V I V I III V) de Open A (E A E A C# E), mas um tom abaixo. Tudo aberto, é a mesma coisa que tocar um G aberto (novidade...) naquele conhecido desenho de A maior com a tônica na quinta corda. O legal dela é a sexta corda como quinto grau, muito útil em muitos Country Blues em que seja interessante ter um quinto grau mais grave que a tônica,.

Open C - C G C G C E 
Nesta, o terceiro grau ficou pra primeira corda (I V I V I III). Grande afinação aberta, algumas velharias foram gravadas nela, tem uma "voz" bem Blues também. Eu ainda me confundo bastante nela, por ser a que menos uso.

DDD - Double Dropped D 
Nesta, pegue a tradicional e abaixe os dois E's pra D. Pronto! Uma boa combinação onde vc pode ter características de Open G nas 4 primeiras cordas, Open D nas 3 graves, além de continuar sem alterar os desenhos dos acordes que usam as quatro cordas do meio. Grande afinação também, gostaria de usá-la mais do que uso, mas...

Pensando em intervalos

Vai uma dica legal aqui, se não a maior de todas, que a maioria já deve saber:
Open D - I V I III V I
Open G - V I V I III V
Open C - I V I V I III

Está vendo os intervalos I V I III? Acertando novos desenhos de acordes pra uma delas, é só transportar uma corda pra cima ou para baixo quando usar na outra afinação. Ajuda a fazer a "digestão" mais rápido...

Posição do slide

Isso todo mundo já deve saber, mas só pra não passar em branco. A nota tocada com o slide está em cima do traste, e não na casa. Pronto, tá tudo explicado. Procure treinar com um pouco de vibrato, pode ajudar a pegar afinação. Depois que pegar o jeito, procure não tocar o mais afinado possível, o Blues não é assim! Treine vibrato com o movimento horizontal, no sentido das cordas, e também com movimento circular, como se estivesse acariciando uma... uma... bom, deixa pra lá, entendeu, né?

Escute os seus favoritos no Blues, improvise junto com as gravações. Não decore exercícios de métodos, crie sua própria assinatura. Escute, escute, escute... não copie, tire músicas pra te ajudar a melhorar técnica de mão direita e esquerda. Use o mínimo de técnica necessária para executar a frase que vc quer, o mínimo. Use a técnica a favor da música, nunca passe-a na frente. Economize nas notas, quanto menos melhor.

Mão direita

Ela é tão importante quanto a esquerda, neste estilo. Eu arriscaria dizer que chega a ser mais importante ainda. Uma caracteristica marcante do Country Blues, é a presença de baixos alternados junto com a melodia. Raramente existem momentos de solo, só melodia. Normalmente ele vem acompanhado do baixo também.
O ideal é ir criando independência nos dedos da mão direita, o que eu ainda estou tentando adquirir... imagine seu polegar direito como uma mão, e o restante dos dedos como outra, é mais ou menos isso.

Instrumentos

Na prática, você pode tocar o Country Blues em qualquer violão com cordas de aço, independente de marca, tamanho e modelo. Na experiência deste que escreve aqui, falando em "flat tops", os violões de corpo pequeno são quase sempre melhores. Se você não tem o violão ainda, não gaste muito $$$ com Taylor ou Martin de $3k, apesar de existirem sempre excessões, vc não precisa disso pra tocar este estilo. Lembre sempre que aquelas velhas gravações de Blues dos anos 20 ou 30 foram quase todas gravadas em instrumentos de nível estudante pra baixo, que diz a lenda era o que os caras podiam comprar na época. Instrumentos feitos pela Harmony ou Oscar Schimidt, coisas de $10... claro, isso é lenda, eu não estava lá pra ter certeza. Não estou dizendo aqui que não dá pra tirar um bom som de um bom Martin por exemplo, só estou tentando dizer que na maioria das vezes não é necessário.

Falando em "resonators", talvez tenha mais coisa... muito foi gravado nesses instrumentos, e pelos preços vistos em catálogos da época, um Duolian (o modelo mais barato de corpo de metal da National) era mais caro em relação aos flat tops baratos. Hoje em dia, com o $ de um bom "flat top" se compra um bom "resonator", ou não...

Basicamente, existem 3 modelos de cones, que são a alma desse tipo de violão.
Da National, o primeiro criado foi o "tricone", que tinha (e tem hoje ainda) 3 cones de 6" que são unidos por uma ponte em forma de "T", de alumínio. Esses "caras" tem um som maravilhoso, como todo bom "resonator", bem balanceado e com um ótimo sustain.

Depois veio o "single cone", com um único cone de 9 1/2", com uma ponte conhecida como "biscuit bridge", e se parece bem com um biscoito redondo um pouco gordo...esses instrumentos tem um som que lembra mais um banjo, um som mais estalado, menos sustain.

A Dobro em 1928 (acho que foi isso...) criou outro tipo de cone, conhecido como "spider bridge". Um cone de 10 1/2" com um troço que lembra um "tweeter" no meio, debaixo de uma ponte em forma de aranha, de alumínio, fornecem um timbre um pouco mais anasalado, tipo algo entre um single e um tricone, ou talvez, pra ficar mais fácil, um violão "gripado", com o nariz bem entupido mesmo.

Os tricones foram feitos com corpo de metal, os single e os spider com corpo de metal e de madeira também. Como eram instrumentos novos na época, parece que, por seus timbres bem característicos, cada tipo de resonator foi achando o seu lugar em estilos de música diferentes. Os single no Blues, os tricone na música havaiana e os spider no Bluegrass. Lógico que se pode tocar qualquer coisa em qualquer instrumento musical, incluindo-se aí os "resos".

Há uma grande confusão ainda no que diz respeito ao nome que os instrumentos têm, mas resumindo (de novo), quando se fala "dobro", tente imaginar um instrumento de madeira com spider, quando se fala "national", tente imaginar um instrumento de metal com um ou três cones.

Hoje existem várias marcas que fazem violões  tipo "dobro" ou tipo "national", pra todos os gostos e bolsos. Lembre-se que, caso vá comprar algum desses, eles foram criados pra dar mais volume e poderem ser ouvidos numa época em que o banjo predominava, então cuidado, pois além do timbre ele tem que ter volume também...ou é melhor comprar um violão normal. Muitos dos novos chineses ou coreanos ou algo do tipo pecam por não terem o volume e/ou o timbre. Dependendo do preço que são vendidos por aqui, pode valer a pena "envenenar" ou não, fique esperto.

Cordas

Outro item que também é muito pessoal. É dito por aí, que corda tem que ser pesada pra funcionar pra slide. Eu concordo em partes. Acho que é mais fácil no começo, mas depois que vc acostuma e se adapta com relação à pressão do slide pra tirar um bom som ou não, caimos na questão pessoal de novo. Cada um usa a bitola de corda que melhor se adaptar, e que melhor agradar o seu ouvido. E material também.

Eu uso um jogo de cordas de medidas "média", ou medium, como é conhecido por aí. As medidas são 013,017,026,036,046,056, e com revestimento de níquel, as famosas cordas de guitarra, mas troco a primeira por uma 015 e a sexta por uma 062, dependendo do violão. Acho que elas capturam melhor o timbre "antigo". Gosto pessoal... além de que pra mim elas mantém por mais tempo o timbre, e vão cansando, não morrem de uma vez como as encapadas em bronze, ou fósforo bronze, ou aqueles troços amarelados/dourados, bonitinhos....

Sobre a ação, procuro deixar entre 3,5 e 5mm entre o topo do traste e a corda na parte debaixo, a parte virada pra escala...ah, na casa 12. Pra mim, dessa forma fica um bom compromisso pra tocar com e sem slide, sem peder o barulho do slide no traste, em alguns casos necessário. Acho que cada instrumento tem que servir pras duas coisas juntas, deixar um instrumento só pra slide acho desperdício. Quer as cordas mais altas? Que tal um Weissenborn?

Exemplos de sons

Flat top - Afinação normal num Stella anos 20 (OS com selo FHCM-First Hawaiian Conservatory of Music)...
[ Download aqui ]

Nacionália [Open G] - Velho Giannini que eu coloquei um cone, é um Quarterman single de 10 1/2".
Download aqui ]

Single cone [Open G] - Um NR Style O... single cone, corpo de metal, em open G.
Download aqui ]

Squareneck [High G] - Afinação padrão de dobro (GBDGBD), Regal RD52, spider bridge, corpo de madeira, squareneck (tocado no colo...)
Download aqui ]

Tricone [Open D] - Um Johnson tricone em open D (DADF#AD), corpo de metal, cones da NR ( National Resophonic).
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